Demolição de pico histórico em 2017, calçadão entregue sem a pista e jovens obrigados a dividir espaço com pedestres expõem contradições do poder público
Balneário Piçarras volta a ser cobrada por uma promessa que se arrasta há anos e que, até agora, não saiu do papel: a construção de uma pista pública de skate.
O projeto, anunciado como parte da revitalização da orla e da implantação do Parque Linear no bairro Itacolomi, chegou a ser apresentado com vídeo em 3D, integrando um complexo de lazer de aproximadamente 1,2 km. O calçadão foi entregue. A pista, não.
Segundo informações divulgadas oficialmente e amplamente compartilhadas, a área de skate faria parte do Parque Linear, na orla do bairro Itacolomi, com previsão de conclusão até o final de 2025. No entanto, praticantes do esporte e moradores denunciam que, na prática, a estrutura segue inexistente, enquanto a demanda só aumenta.
A ausência do equipamento público tem reflexos diretos na segurança. Sem um local adequado, skatistas e praticantes de BMX passaram a utilizar o próprio calçadão recém-entregue, dividindo espaço com pedestres, idosos e crianças. O resultado é um cenário constante de risco de acidentes — para quem pratica o esporte e para quem apenas circula pela orla.
Um passado demolido, um futuro adiado
A indignação da comunidade não é recente. Em 2017, um espaço conhecido como “Mercadão”, localizado na região central, nas proximidades do Mercado Top, foi demolido sem aviso prévio.
O local era considerado um pico histórico do skate regional, construído e mantido pelos próprios praticantes, em um modelo DIY (faça você mesmo), respeitado por diferentes idades e modalidades.
Na época, a destruição gerou revolta e manifestações nas redes sociais. Um dos relatos, feito ainda em julho de 2017, denunciava que “anos de trabalho de pessoas normais, que dedicaram seu tempo para a prática do esporte, foram jogados fora”, além de cobrar diretamente as prefeituras de Penha e Balneário Piçarras pela falta de alternativas.
Desde a demolição do Mercadão, passaram-se mais de sete anos sem que o município oferecesse um novo espaço adequado para o skate. O terreno ficou abandonado por longo período e, apenas recentemente, voltou a ser alvo de movimentações para novas obras.
Promessa conhecida, execução atrasada
De acordo com praticantes ouvidos pela reportagem, a pista de skate estava prevista para a parte final do projeto do Parque Linear, próxima à divisa entre os bairros Itajuba e Itacolomi.
“Estava incluso no projeto, teve vídeo modelado em 3D mostrando como seria. O calçadão foi entregue, mas a pista não. Ficou sempre para ‘mais adiante’”, recorda um skatista local.
Ele questiona o motivo da demolição antecipada do Mercadão, sem que houvesse a entrega simultânea de uma nova pista. “Tiraram uma pista antes de oferecer outra. Por qual motivo? Se essa pista fosse lançada junto com o projeto da orla, teria suprido a demanda e matado a saudade dos amantes do esporte.”

Skate que projetou Piçarras para o Brasil
O Mercadão não era apenas um ponto local. O espaço chegou a receber gravações de sessões da marca Qix, referência nacional no skate brasileiro, o que reforça a relevância histórica e cultural do pico demolido. “Era um lugar que colocou Piçarras no mapa do skate. Não era bagunça, era esporte, cultura e convivência”, reforça o praticante.
Cobrança segue aberta
Enquanto a pista prometida segue em compasso de espera, jovens continuam improvisando manobras em locais inadequados, e a cidade acumula mais uma promessa não cumprida.
A pergunta que fica é simples e direta: por que um projeto anunciado, divulgado e parcialmente entregue deixou justamente de fora o espaço destinado ao esporte urbano?
A reportagem deixa o espaço aberto para manifestação da Prefeitura de Balneário Piçarras sobre o cronograma atualizado da obra, os motivos do atraso e quais medidas estão sendo tomadas para garantir segurança aos praticantes e pedestres até a entrega da pista de skate prometida.






